Arcos do Bexiga
A historiografia dos Arcos do Bixiga é repleta de vazios, falsas crenças e imprecisões. No imaginário urbano e na memória coletiva da cidade, a versão que mais circula é a de que os Arcos seriam representativos de técnica construtiva tradicional trazida a São Paulo no século XIX por artesãos calabreses, que teriam sido responsáveis, inclusive, pela produção artesanal dos tijolos, o que justificaria seu status de patrimônio cultural paulistano. Tal versão é reforçada pelo próprio nome com que, em 1992, foi batizado oficialmente o logradouro onde eles se encontram: “Praça dos Artesãos Calabreses”, em homenagem àqueles que os teriam construído.

1908–1921: projeto e construção
Então conhecido pelo nome de Travessa da Assembleia, nos últimos anos do século XIX o local dos atuais Arcos do Bixiga era alvo de constantes reclamações relacionadas a más condições de limpeza, bem como problemas de iluminação e conservação da via.


Datam do início do século seguinte, mais especificamente de 1904 e 1907, os primeiros melhoramentos no local, implicando a desapropriação e demolição de algumas edificações para o alargamento e prolongamento da rua. Na “Planta Geral da Cidade de São Paulo”, elaborada em 1905 pelos engenheiros Alexandre Mariano Cococci e Luiz Fructuoso Costa para a Prefeitura, nota-se a presença da então travessa e a inexistência da atual rua Jandaia, que hoje corre paralela, em nível mais elevado e apoiada nos Arcos.

Em 1908, a Prefeitura, chefiada por Antônio da Silva Prado, solicitou à Câmara Municipal o aval para uma despesa de 17:210$420 (dezessete contos, duzentos e dez mil e quatrocentos e vinte réis) destinada à construção de um “muro de revestimento” na travessa da Assembleia. Embora muito seja dito hoje a respeito de os arcos terem sido construídos com técnicas tradicionais por imigrantes calabreses, não foi possível encontrar qualquer informação a respeito da origem ou nacionalidade dos operários que realizaram a obra.
O projeto original do muro — datado de 15 de julho de 1908 e assinado pelo engenheiro Adolpho Graziani, da Diretoria de Obras Municipais — previa a construção de um “muro de alvenaria de pedra com argamassa de cal hidráulica e areia”, dividido em cinco seções separadas por colunas, sem arcos. A obra acabou executada com outra técnica, outro material e outros aspectos estéticos, indicando drásticas alterações no projeto inicial ou a existência de um segundo projeto.

Estudo do arquiteto Nestor Goulart Reis Filho levantou a hipótese de que os arcos tenham sido projetados por Hyppolito Gustavo Pujol Júnior, pioneiro da técnica do concreto armado no Brasil. Entretanto, entre 1912 e 1913 o Correio Paulistano noticiou autorizações de pagamento ao engenheiro Christiano Machado, da firma Haupt e Comp., pelo serviço de movimentação de terras e execução das obras. O Relatório de 1911 apresentado à Câmara Municipal, assinado pelo prefeito Raymundo Duprat, confirma os nomes de Christiano Machado, responsável pela obra, e Mauricio Rosa, engenheiro da Diretoria de Obras Municipais, responsável pela fiscalização.
Quanto ao material, apesar da crença disseminada de que os tijolos foram fabricados artesanalmente por mestres italianos, a análise de documentos oficiais e jornais da época identifica as empresas responsáveis pelo fornecimento: a Companhia Paulista de Tijolos Calcáreos, a Companhia Materiaes e a Haupt e Comp. Segundo a publicação municipal Melhoramentos da Capital 1911–1913, o muro é constituído por concreto de cimento e tijolo sílico-calcário. Longe de serem produzidos artesanalmente por mestres calabreses, os tijolos sílico-calcários eram uma inovação — com origem não na Itália, mas na Alemanha.

A conclusão dos arcos estava prevista para 1913. Contudo, diversas reclamações de cidadãos em jornais indicam atrasos a partir de 1914. O calçamento só foi concluído em 1915 e o parapeito provavelmente em 1921, quando foi aberta a última concorrência pública para sua conclusão.

1930–1987: seis décadas de esquecimento
Com base em fotografias e anúncios de jornais, é possível inferir que ao final da primeira metade da década de 1930 o terreno existente entre o muro e a rua da Assembleia já estava quase completamente ocupado por sobrados que, com seus fundos voltados para os arcos, acabaram encobrindo-os. Datam de 1930 os primeiros anúncios publicados de forma sistemática em jornais da capital oferecendo, “na rua da Assemblea”, casas de três e quatro dormitórios para aluguel, voltadas a famílias de classe média.


Em 1965, o prefeito José Vicente de Faria Lima propôs modificações no plano de abertura da Avenida 23 de Maio, incluindo a formação de uma praça no leito das ruas Jandaia e Assembleia. Iniciou-se um processo de desapropriação que, por volta de 1970, já estava completo. O projeto, no entanto, não foi executado — e os sobrados desapropriados foram progressivamente ocupados por famílias em situação irregular, transformando-se em cortiços ao longo dos anos 1970.

No início da década de 1980, estimava-se que pelo menos 120 famílias residiam nos imóveis. O secretário municipal de Vias Públicas, Otávio Camilo de Almeida, demonstrou desconhecimento quanto à existência dos antigos arcos, afirmando que as fundações dos imóveis serviam de arrimo para a rua Jandaia e que seria necessário um “custoso muro de arrimo” para qualquer intervenção. Doze meses depois, já na gestão Reynaldo de Barros, representantes da Emurb informaram que jamais receberam qualquer solicitação de estudo para a área — evidência da inconstância e descontinuidade das políticas para a região.

Pela Lei Municipal 9.725 de 1984, o prefeito Mario Covas converteu toda a área em Zona de Uso Especial (Z8-200), sujeita a preservação — tanto pelo valor arquitetônico como pelo interesse social. Em março de 1986, o prefeito Jânio Quadros apresentou novo projeto de urbanização prevendo a remoção dos ocupantes e demolição dos imóveis. Em questão de meses, o projeto foi substituído por outro que previa a demolição para a construção de um anel viário de ligação entre as avenidas 23 de Maio e a Ligação Leste-Oeste — retomando a destinação originalmente proposta na gestão Faria Lima nos anos 1960. Em abril de 1987, após polêmicas na Câmara Municipal, Quadros conseguiu aprovação para retirar a área da zona de preservação.

1987–2002: redescoberta e monumentalização
Iniciou-se o processo de remoção das famílias, transferindo-as para conjuntos habitacionais em Guaianases e Campo Limpo. A demolição dos imóveis das ruas da Assembleia e Jandaia durou de maio a dezembro de 1987, com a implosão de alguns casarões e de um edifício de seis andares. Fotografias publicadas pela imprensa mostram que desocupação e demolição se deram de forma simultânea, com algumas casas sendo demolidas enquanto suas vizinhas ainda estavam ocupadas.


Com o decorrer das demolições, os arcos do muro de arrimo foram sendo gradualmente revelados. Ao tentarem identificar a origem da estrutura, as autoridades demonstraram novamente desconhecimento: o secretário de Vias Públicas, Walter Bodini, afirmou tratar-se de uma construção do século XIX feita com tijolos importados da Europa. A imprensa chegou a chamar a estrutura de “aqueduto”. Apenas em estudo posterior encomendado pelo secretário Cláudio Lembo foi confirmada a construção entre 1911 e 1913 em concreto armado e tijolos sílico-calcários.

Em julho de 1987, uma matéria do Estado de S. Paulo, assinada por Luiz Roberto de Souza Queiroz, apresentou uma versão sem embasamento que até hoje circula: a de que os arcos teriam sido construídos em 1873 por imigrantes calabreses para conter deslizamentos causados por enchentes. O arquiteto Carlos Lemos, da FAU-USP, rebateu diretamente: “Talvez os pedreiros que construíram o muro tenham nascido na Itália. Mas não existe uma técnica italiana de confecção de arcos.” Embora ingênuo e muito conveniente para a comunidade italiana, o conto promovido pela imprensa da época se perpetuou ao longo das décadas e está presente no imaginário da cidade até os dias atuais.
Em março de 1988 foi inaugurado o novo acesso à Avenida 23 de Maio, tornando os Arcos passagem obrigatória para motoristas vindos da Radial Leste-Oeste.

A escolha pela demolição dos imóveis, duramente criticada por especialistas, rapidamente perdeu espaço no debate público graças à conveniente “redescoberta” dos Arcos. A disputa pela manutenção do conjunto histórico cedeu lugar ao novo monumento. A associação aos Arcos da imagem trabalhadora da comunidade italiana, elemento importante do “espírito” e da “identidade” paulistanos, além de convencer sobre sua importância, justificou de vez, perante a opinião pública, a demolição dos imóveis que ocupavam o local.
Em dezembro de 2002, o Conpresp tombou os “Arcos da rua Jandaia”, destacando seu valor histórico, arquitetônico, ambiental e afetivo. Dez anos antes, em 1992, por decreto da prefeita Luiza Erundina de Sousa, o logradouro à sua frente recebeu a denominação oficial de “Praça dos Artesãos Calabreses” — contribuindo para essa vocação monumental.

Consolidado o processo de monumentalização, os Arcos desempenham hoje um papel de cartão postal do bairro do Bixiga, além de estarem incorporados ao imaginário urbano da cidade de São Paulo, sendo alvo de disputas políticas e polêmicas até os dias atuais.